Numa manhã cinzenta, levantou-se da cama fria e desaconchegante, e percorreu o hall do seu apartamento. Parou defronte da porta de entrada e permaneceu imobilizada diante desta. Pensava como poderia ocupar o vazio do tempo. Era Sábado. «Sábado é dia de lazer» – pensou – «O que é que as pessoas fazem para lazer?».
Moveu-se repentinamente como se lhe tivesse surgido uma ideia. Abriu a porta do armário da cozinha e começou a retirar todos os copos que estavam lá dentro. Apressadamente, dirigiu-se à arrecadação e pegou num martelo que estava junto à antiga caixa de ferramentas que pertencera ao seu pai. Com um ar resoluto, dirigiu-se novamente à cozinha e pegando nos copos, colocou-os ao longo do chão do hall.
A sua face inexpressiva deu lugar a uma estranha expressão de zanga. De olhos enraivecidos, pegou no martelo e com toda a força começou a estilhaçar todos os copos que estavam no chão, ao ritmo dos seus gritos guturais. Martelou-os até à exaustão, até restarem apenas pequenos estilhaços de vidro, espalhados pela alcatifa. Deixou-se cair no chão, de cansaço, e aí permaneceu até recuperar de novo as suas forças.
Largou o martelo e ergueu-se, caminhando para o inicio do hall. Estendeu os braços, como se estivesse a tentar equilibrar-se e começou a percorrer o corredor, com os seus pés despidos sobre os estilhaços de vidro. Quando chegou ao fim do seu manto de estilhaços, já com os pés ensanguentados, pensou para si própria: «Já tenho um sítio onde ir… vou ao hospital».